Situação -Em abril deste ano, pela primeira vez na história do IBGE, 82 mil recenseadores puderam tirar da bolsa o peso de centenas
de questionários de papel. Em troca, carregam agora apenas um pequeno computador de mão, equipado com um sistema de GPS integrado para realizar
o Censo Agropecuário e a Contagem da População.
A praticidade e a leveza que a tecnologia móvel proporciona saltam aos olhos, mas nem de longe são os únicos benefícios da solução que o
IBGE desenvolveu e implementou em menos de um ano. Com os PDAs, os pesquisadores podem corrigir uma informação anotada de forma incorreta
com alguns cliques - em vez da rasura, da borracha e da confusão de espaços no papel, por exemplo.
Outro fator relevante é a detecção automática de dados inconsistentes no momento da inserção. Com os questionários de papel, muitas vezes
era preciso voltar ao local da pesquisa para validar uma informação incorreta. A transmissão das informações também foi um verdadeiro salto
de eficiência: tudo o que sai do PDA vai diretamente para o banco de dados do IBGE - sem a necessidade de digitação ou escaneamento das
informações.
A idéia do projeto - que segundo o IBGE é pioneira no mundo, com esse grau de abrangência - surgiu há mais de dez anos. "Em 1995, chegamos
a desenvolver um trabalho para fazer o Censo Agropecuário em handhelds, mas não tivemos condições nem conhecimento para levar isso adiante",
conta Luiz Fernando Mariano, CIO do IBGE.
O projeto, no entanto, foi amadurecendo até que, em 2005, tomou-se a decisão de dar às pesquisas uma solução que tornasse a coleta e a
consolidação de dados mais ágeis, eficientes e econômicas, evitando o retrabalho e, ao mesmo tempo, aumentando o nível de segurança dos dados.
"Sabíamos que tínhamos pouco tempo e que estávamos falando de uma tecnologia que não conhecíamos, mas fomos em frente", relembra Mariano.
O pouco tempo a que Mariano se refere pode ser traduzido em cerca de dez meses, prazo em que foram feitas todas as especificações, licitações,
contratações, compras de produtos e, é claro, o completo desenvolvimento da solução e as sessões de treinamento de pessoal.
Solução -Quando iniciou a procura por uma solução de mobilidade, o IBGE tomou conhecimento de que a plataforma Microsoft estava sendo
utilizada por alguns órgãos dos governos americano e colombiano. "Procuramos a Microsoft e solicitamos ajuda. Nossa necessidade foi bem acolhida",
revela Mariano.
Em parceria com a Allen Informática, a Microsoft apresentou uma solução baseada em Pocket PC rodando o Microsoft Windows Mobile 5.0. O recebimento
dos dados e a centralização das informações ficavam a cargo do Microsoft SQL Server Enterprise 2005. Segundo Alexandre Nader, gerente de negócios
da Allen Informática, inicialmente o instituto não estava certo se deveria usar o Windows Mobile. "Eles compraram a idéia depois de perceber que o
sistema era a melhor alternativa em relação a desempenho, custo, performance e comunicação com o banco de dados", explica. "Sabíamos que a solução
funcionava e atendia às nossas necessidades e, portanto, partimos para a adoção. Não tínhamos mais tempo a perder", lembra Mariano.
A falta de tempo para realizar um teste mais profundo da aplicação não era a única questão que preocupava o IBGE. A ausência de conhecimento prévio
da tecnologia móvel e os problemas de comunicação também afligiam o instituto. "Em termos de dimensão, o Brasil é praticamente um continente.
Temos muitos problemas de comunicação", diz o CIO.
O trabalho envolveu cerca de 30 pessoas. Delas, praticamente metade fazia parte da equipe do IBGE. Também participaram profissionais da Allen
Informática e da SightGPS, escolhida para fornecer os PDAs.
O instituto adquiriu 82 mil Pocket PCs, 82 mil licenças de Windows Mobile 5.0 e SQL Server Mobile e, para recebimento das informações, o sistema
de banco de dados Microsoft SQL Server Enterprise 2005, rodando em servidores equipados com Microsoft Windows Server 2003 R2 Enterprise e Standard.
Os equipamentos foram preparados para receber as informações da Contagem da População (sexo, idade e migração das pessoas entre os estados
brasileiros), que deve pesquisar cerca de 30 milhões de domicílios, e do Censo Agropecuário, que exige a passagem por 5,7 milhões de
estabelecimentos.
Para a SightGPS, o desafio foi fornecer, em tempo hábil, um produto resistente e que tivesse funcionalidades de PDA e GPS integradas.
Para tanto, ela fechou uma parceria com a Mitac, empresa taiwanesa que recentemente havia desenvolvido a solução integrada. Aqui no Brasil,
a SightGPS criou uma capa de proteção para melhorar o desempenho dos PDAs quando usados em campo.
"Se eles optassem por usar um PDA comum em campo, teriam muitos problemas com a quebra de aparelhos", afirma Jader Leite, diretor-presidente
da SightGPS. Ele estima que dos 82 mil aparelhos comprados, 40 mil, pelo menos, poderiam apresentar falhas. "Daí a nossa recomendação pelo
uso de uma capa protetora", diz. De fato, a medir pelos dois primeiros meses de operação em campo, o nível de problemas com os aparelhos é
baixíssimo. "Essa é a maior prova de que a capa protetora ajudou o IBGE a adotar um PDA mais barato, que custa cerca de 2 mil reais, para
uma finalidade que aparentemente exigiria um PDA robusto, de cerca de 10 mil reais", conclui Leite. "Optamos por essa solução porque precisavávamos
de eficiência com rapidez", complementa Mariano.
Paralelamente, o IBGE equipou 532 agências permanentes, 574 postos de atendimento e milhares e órgãos públicos com computadores e acesso à
Internet em banda larga via satélite e ADSL, somados a mais de 4,4 mil locais de coleta não informatizados. "Quando o recenseador chega a
um desses locais, basta descarregar as informações do PDA via Bluetooth. Tudo vai direto para o nosso centro de processamento, no Rio de Janeiro",
explica Mariano.
Benefícios -Não é difícil de entender o entusiasmo do executivo com o projeto. Com 30 anos de IBGE, Mariano conta que, no início, fez
Censo perfurando cartão. "Ao longo dos anos, todos os processos evoluíram, mas a vida do pesquisador em campo continuava submetida ao uso do papel",
diz. De acordo com ele, mesmo aprimorando o desenvolvimento dos sistemas, do processamento central e do hardware em geral, era difícil melhorar a
coleta de dados.
O transporte dos questionários era outro obstáculo a ser superado. Imagine, por exemplo, ter de fazer a pesquisa na Região Norte do país, em lugares
em que se navega 17 dias pelo Rio Amazonas para chegar. Até pouco tempo essa era uma situação real. "Depois levar os questionários ate lá, era
preciso trazer tudo de volta, para uma unidade do IBGE na qual o papel era dividido em pastas de acordo com os municípios", lembra Mariano.
Antes de 2000, todos os dados eram transcritos, trabalho que durava sete meses. "No Censo de 2000 tivemos um avanço extraordinário, porque passamos
a escanear tudo em cinco centros, funcionando 24 horas por dia, durante cerca de 100 dias", recorda Mariano. Agora, com os PDAs, basta chegar a um
dos locais informatizados e enviar as informações. Todo o trabalho - desde a coleta dos dados até o conhecimento dos resultados - deve levar em
torno de quatro meses. O prazo para coleta de dados é 31 de julho. O resultado deve sair em seguida. A confiabilidade das informações também merece
destaque. Antes, se o pesquisador anotasse que uma pessoa de 50 anos tinha um filho de 40, o dado ficaria ali até a hora da consolidação para, só
então, ser percebido o problema. "O número de erros é infinitamente menor do que o que ocorria anteriormente", compara Nader. "Não estamos apenas
tirando o papel das mãos dos pesquisadores, mas oferecendo a eles um processo de crítica que roda durante a entrevista", completa Mariano.
No total, 115 milhões de reais foram investidos nas inovações tecnológicas. Deles, 88 milhões foram destinados à compra dos aparelhos. Apesar das
cifras, um dos grandes benefícios do projeto de mobilidade é a economia, pelas contas do próprio IBGE.
A explicação é simples: papel é caro. "Usar papel é caríssimo. Não só pelo valor da matéria prima, mas também pelo custo de distribuição, armazenamento
e transporte de informações para o meio digital", explica Mariano. Os gastos com pessoal também são altos. "Mão-de-obra é o mais caro no censo.
E quanto mais tempo você tiver a operação em campo, mais custo terá", explica o CIO.
A operação que o IBGE colocou nas ruas é basicamente um "três-em-um". O Censo Agropecuário deve percorrer 5.564 municípios. A contagem da população
em municípios com menos de 170 mil habitantes visitará 5.435 cidades. De quebra, será feito um cadastramento de endereços.
A expectativa é realizar o Censo de 2010 com cerca de 300 mil PDAs. Depois da contagem populacional nos municípios menores e o Censo Agropecuário,
faltarão 129 municípios, que são os grandes conglomerados humanos. "Até lá, já teremos bastante experiência no uso do novo sistema. Será tudo muito
mais fácil e rápido", finaliza Mariano.