Situação
Quem acredita que o tamanho do ambiente de tecnologia deve ser proporcional ao porte
da organização ficaria surpreso ao conhecer o data center do Banco Central do Brasil
(BC). Nos últimos anos, mesmo diante do crescimento da demanda por serviços, o número
de máquinas que compõem o ambiente de TI da instituição sofreu uma redução
significativa. A responsável por aumentar o espaço livre no centro de dados e viabilizar uma diminuição de 20% nos
gastos com energia elétrica foi a tecnologia de virtualização, que apoiou o projeto de consolidação dos servidores.
Dos 530 servidores que compõem o parque da instituição, o projeto começou com 150 máquinas. Estas foram
consolidadas em apenas 20 servidores, organizados em 10 pares de clusters, que abrigam hoje 100 máquinas virtuais.
"A virtualização trouxe redução de custos com equipamentos, energia elétrica, ar condicionado e espaço físico",
explica Daniel Moyses Neto, chefe da divisão de Sistemas Operacionais do Banco Central.
O executivo liderou o processo, que teve início em 2006 quando o BC começou a estudar uma saída para um problema
que se anunciava: muitos de seus servidores atingiriam o final da vida útil ou da garantia e precisariam ser
substituídos. Esses equipamentos respondiam por funções variadas, que iam desde serviços de impressão e hospedagem
de sites importantes até aplicações críticas para as operações do banco. "Alguns aplicativos utilizavam mais de
um servidor em função da criticidade e da demanda por redundância", relembra.
A missão da instituição deixa claro o tamanho da responsabilidade que a área de TI tinha em mãos. Encarregado de
assegurar a solidez do sistema financeiro nacional, o Banco Central atua junto a instituições financeiras, órgãos
internacionais, além de prestar atendimento à população. A estrutura de TI também apóia os 6 mil funcionários da
instituição. Tudo isso exigia a definição de planos eficientes de migração e a implementação de soluções de alta
disponibilidade e que possibilitassem a redução de custos.
Solução
O esforço para aprimorar o ambiente conduziu o Banco Central pelos caminhos da virtualização. Em uma primeira
etapa, a instituição adotou o Microsoft Virtual Server 2005 R2 SP1 e o combinou com os recursos de clustering do
Microsoft Windows Server 2003 R2 Enterprise x64 Edition nos equipamentos de 64 bits que foram adquiridos na época.
Com essas tecnologias da Microsoft, além das cem máquinas virtuais (Virtual Machine/VM) que operam na sede em
Brasília, a organização montou uma estrutura composta por um servidor, com três a quatro máquinas virtuais, em
cada uma das nove regionais do BC. Porém, tanto na sede quanto nas regionais, o Virtual Server permitia que as
VMs fossem de apenas 32 bits.
Migração de valor
Em fevereiro de 2008, a equipe de TI do BC passou a trabalhar com a versão beta do Hyper-V, parte integrante do
Microsoft Windows Server 2008. De acordo com Nelson Kolarik, analista de TI do Banco Central, várias
características da tecnologia se mostraram adequadas ao que o banco demandava. "O Hyper-V é capaz de trabalhar com
máquinas virtuais de 64 bits e 32 bits, em um ambiente com múltiplos processadores e com até 64 GB alocados por
VM", destaca.
O executivo conta que o Banco Central analisou a estrutura com o auxílio do Microsoft Assessment and Planning
Toolkit (MAP). A ferramenta provê inventários e relatórios de uso da rede, capacidade de memória, entre outros,
ajudando a selecionar quais equipamentos estão aptos a receber máquinas virtuais. Além disso, a solução fornece
elementos capazes de nortear a migração para o Windows Server 2008.
O passo seguinte foi iniciar a migração do Virtual Machine para o Hyper-V. Até novembro, quatro dos 20 servidores
virtualizados estavam operando com base na nova solução da Microsoft. "A implementação do primeiro cluster,
formado por dois equipamentos físicos, foi concluída em uma semana. O segundo cluster levou menos de um dia, uma
vez que já tínhamos documentação sobre o processo", conta Kolarik.
Entre os aplicativos que operam nas máquinas virtuais estão bancos de dados, serviços web e sistema de antivírus.
A meta é migrar gradativamente as aplicações que atualmente rodam no Virtual Server 2005 R2 para o Hyper-V.
Nos próximos seis meses, os 20 equipamentos físicos já devem trabalhar com ele. "Estamos aguardando a chegada das
máquinas, adquiridas recentemente por meio de uma licitação, para dar continuidade ao projeto", afirma Moyses Neto.
Benefícios
De acordo com ele, concluída essa migração, o Banco Central irá difundir a tecnologia. Atualmente, a instituição
possui cerca de 400 servidores rodando com o Windows, e a perspectiva para 2009 é consolidar a estrutura,
totalizando aproximadamente 250 máquinas. "Esse número vai depender do aumento da demanda por serviços internos e
externos, que cresce continuamente e em ritmo acelerado", observa.
Indicadores positivos
Para o BC, a adoção da virtualização significou um grande ganho de flexibilidade, já que é possível implementar
novas aplicações em máquinas virtuais com agilidade. "Podemos moldar nossa infra-estrutura para hospedar novos
servidores com mais rapidez, de acordo com a demanda do banco. Isso se traduz em melhor qualidade de serviço",
afirma Moyses Neto.
A possibilidade de transferir máquinas virtuais entre servidores também facilitou o dia-a-dia e ocasionou a
diminuição no volume de chamados técnicos. Pela análise de Kolarik, a migração de máquinas virtuais entre
hospedeiros é cerca de 20% mais rápida do que no cenário anterior. "Isso garante períodos de paralisação mínimos
quando, por algum motivo, é necessário realizar a transferência de VMs", comenta.
Na avaliação de Volnys Borges Bernal, pesquisador do Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica
da Universidade de São Paulo (USP), o grande ganho proporcionado pela virtualização é a flexibilidade. "A empresa
ou instituição consegue reduzir o tempo de resposta na implementação e migração de aplicações. Isso se traduz em
rapidez", aponta. Além disso, a virtualização também proporciona maior disponibilidade e maior garantia de
continuidade dos negócios em situações de falhas. É por tudo isso que, de acordo com o Gartner, a virtualização
ocupa a primeira posição no ranking de tecnologia com maior importância estratégica para 2009. Em 2008, estava em
quinto lugar na lista.
Com o Hyper-V e as tecnologias de cluster, o BC tem hoje um ambiente virtualizado de alta disponibilidade, com
planos eficientes de contingência. Apesar de a mudança não ser percebida pelo usuário, ela traz impactos na rotina
da equipe tecnológica, ao garantir que o sistema esteja sempre no ar.
A recuperação de desastres na área de TI do BC também está mais ágil. Situações que antes exigiam mais de duas
horas para voltar à normalidade hoje, na maioria dos casos, se regularizam em menos de um minuto, graças às
ferramentas que viabilizam o rápido provisionamento de servidores.
O aumento de desempenho foi outro benefício que o BC identificou com a migração para o Hyper-V. De acordo com
Kolarik, houve um salto de velocidade de até 70% no acesso ao disco e de 50% no processamento em relação ao
Virtual Server.
Ao consolidar e virtualizar servidores, o BC diminuiu ainda os gastos com licenças de software e com manutenção.
"A redução do número de máquinas afeta a área de suporte. Contabilizamos uma economia de 30% no contrato de
manutenção", revela Moyses Neto.
Operações estáveis
Flexibilidade e redução de custos com hardware, software, energia e suporte são os grandes apelos da virtualização,
mas para que o sonho de criar VMs facilmente não vire um pesadelo, é preciso ter cuidados. "A criação de máquinas
virtuais sem um controle e políticas pode transformar a estrutura em um caos se não houver a gestão apropriada das
máquinas", explica Reinaldo Roveri, gerente de análise de mercado do IDC Brasil.
O especialista lembra que picos de processamento nas máquinas virtuais que operam em um mesmo servidor físico,
quando subdimensionadas, podem comprometer a performance. Daí a importância de gerenciar o ambiente e poder
transferir máquinas virtuais de um equipamento para outro com facilidade. "As empresas demandam uma solução de
gestão única, que as permita administrar tanto máquinas virtuais como físicas", comenta o analista.
Para controlar de perto a estrutura, o BC usa o Microsoft System Center Virtual Machine Manager. Com essa
ferramenta, é possível acompanhar o status das máquinas virtuais, para verificar as aplicações executadas, a partir
de um único console. "Assim, conseguimos mover VMs e realizar as demais rotinas de forma simples", afirma Kolarik.
O balanceamento de carga, proporcionado pelo Virtual Machine 2008, assegura alta disponibilidade na execução dos
serviços críticos. "Com o Virtual Machine Manager 2008, o gerenciamento do ambiente torna-se centralizado,
aumentando a produtividade em aproximadamente 20%", comemora Moyses Neto.
Isso coloca o BC no que a IDC classifica como "virtualização 2.5", cujo foco está na continuidade dos negócios
(veja texto O avanço da consolidação). "Nessa etapa, as corporações conseguem distribuir e monitorar,
automaticamente, a carga de acordo com o nível de ociosidade dos servidores da rede", detalha Roveri.
A segurança, obsessão do sistema financeiro, também foi contemplada. Além das ferramentas atuais, o BC planeja
implementar o System Center Data Protection Manager. "Nosso foco sempre é aprimorar o ambiente para que a
organização possa operar com excelência e cumprir sua missão", explica Moyses Neto. É a área de TI do BC colocando
em prática conceitos que a instituição sempre persegue: estabilidade, eficiência e economia sustentável.