
Na década de 1970 o casal de trabalhadores rurais, José e Aparecida Caoneto, deixaram a pequena cidade paranaense de Tamboara com suas duas filhas para trabalhar como operários em São Paulo. Ao chegar na capital paulista, a família fixou residência no bairro Parque São Rafael que fica no extremo da Zona Leste e faz divisa com municípios do ABC Paulista. O local tornou-se conhecido por possuir pequenos lotes que eram vendidos, sobretudo a famílias que migravam de outras regiões do Brasil em busca de melhores salários e condições de vida.
Segundo a filha caçula do casal, Edilamar Caoneto, o lugar onde cresceu não tinha opções de lazer, como cinema, salas culturais ou bibliotecas. Diante dessa realidade, a menina, com então quatorze anos, começou a participar de movimentos sociais, dentre eles o programa piloto do MOVA (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos). Iniciado em favelas da zona leste e criado pelo educador e filósofo brasileiro Paulo Freire, o movimento só foi institucionalizado em 1989 em São Paulo durante a gestão do educador na secretaria de educação de São Paulo. O MOVA possui uma proposta que reúne Estado e Organizações da Sociedade Civil, para combater o analfabetismo entre jovens e adultos. A professora conta que trabalhou no começo do projeto, em 1986, quando a ideia ainda era experimental e confessa que no começo estranhou o método, mas logo em seguida se encantou pelo ensino, iniciando assim sua carreira na educação: "Hoje o MOVA é realidade na Prefeitura de São Paulo e fico feliz em ter participado disso", relembra.
Graduada em Artes e Pedagogia, atualmente Edilamar é Gestora da Escola Pública Professor Isaac Schraiber, localizada no Parque São Rafael, lugar onde cresceu. A educadora conta que a realidade e o processo de desenvolvimento da região influenciaram diretamente na sua formação acadêmica, pois passou a acreditar tanto em organizações sociais, por fazer parte de várias delas, como nas redes colaborativas existentes no local.
Casada e mãe de dois filhos, a professora reside na cidade de Santo André e como uma boa profissional procura se atualizar sempre. Ela já fez diversos cursos na área e atualmente está cursando sua segunda Pós Graduação pela REDEFOR-USP (oferecido aos professores pela parceria estabelecida pela Secretaria de Educação e Universidade de São Paulo). De acordo com a educadora, suas manhãs são dedicadas às leituras complementares aos seus estudos. A partir das três horas da tarde inicia sua jornada de trabalho que vai até onze horas da noite.
Pouco tempo, muito trabalho e grandes realizações
"Quando acredito que algo vai dar certo ou que pode fazer a diferença, não existe obstáculo e tão pouco dificuldades que me impeçam de caminhar para que se concretize". E foi pensando dessa maneira, que em 2003, Edilamar e seus colegas de trabalho iniciaram o Projeto Educacional "Revitalização do Córrego de Cipoaba". Os educadores da Escola Estadual Isaac Schraiber se uniram para alertar alunos a buscar mecanismos em defesa das águas daquele rio visivelmente em estado de degradação próximo ao colégio. Foram elaboradas pesquisas junto à comunidade, constatando que havia grande preocupação por parte dos moradores, referente à preservação do Cipoaba.
O projeto mobilizou moradores, igreja, subprefeitura, unidades de saúde e outras entidades e autoridades. A partir da iniciativa surgiram várias frentes, entre elas: Cooperativa de Sabão Rio Cipoaba, Oficina no canteiro do rio, criação do Cantinho Ecológico na Subprefeitura de São Mateus e a instalação do Ecoponto em São Mateus.
Edilamar Caoneto Zago e seu par no projeto, Tereza Solla CintraEm 2004 Edilamar deu início à divulgação de seus projetos utilizando a tecnologia em prol da aprendizagem significativa. Dois anos depois, a gestora e autora do projeto inscreveu o trabalho no Prêmio Microsoft Educadores Inovadores e percebeu o quanto podia contribuir e modificar uma realidade existente por meio de ações positivas. "Esse momento foi um divisor em nossa comunidade escolar e na vida pessoal de cada um que participou desse projeto. Contamos nossa trajetória, nossos sonhos, tivemos a possibilidade de disseminar essa história para outras culturas, enfim fizemos o que devíamos ter feito! Deu certo! Foi fantástico", conta ela, realizada.
Após vencer a primeira edição nacional do Prêmio Microsoft Educadores Inovadores, em 2006, a professora conta que seu projeto ganhou mais visibilidade diante da comunidade e autoridades locais. A autora acredita que as atividades dos educadores não devem se limitar a "zona de conforto" e deve ir além dos muros da escola. "Olho a vida e sempre a comparo as plantações de minha infância: é necessário arar a terra, adubar, plantar, ver florescer, dar água e partilhar a bela colheita. Não desistir dos sonhos é não deixar morrer em nós, esse olhar de jardineiro."
A educadora também esteve presente nas edições posteriores, mas dessa vez integrada ao Comitê de Seleção, ajudando a selecionar os projetos mais inovadores das edições dos anos de 2007 e 2008. Edilamar conta que a partir dessa experiência, percebeu que existem muitos educadores tentando inovar suas práticas docentes, buscando novas metodologias e projetos que supram as deficiências encontradas em seus espaços. "Percebi a seriedade, boa vontade, imparcialidade com que os organizadores, comitê e todos os responsáveis pelo evento tratam os participantes do Prêmio. É notável o quanto se emocionam quando percebem práticas positivas. Eles sabem que colaboram ao divulgar metodologias assertivas. O Prêmio possibilita partilhar as experiências, e isso é essencial. Integrar o Comitê foi uma aprendizagem!"
Educadores Inovadores em ação
A professora está sempre atenta às iniciativas da Microsoft e também faz parte do grupo "Educadores Inovadores em Rede". Essa comunidade é formada por todos os vencedores das edições do Prêmio Microsoft Educadores Inovadores e o objetivo do grupo é trocar conhecimento e compartilhar ideias inovadoras com o uso das TICs no ensino. "Uma das grandes dificuldades da educação é a formação de grupos. Por isso é importante cada ação proposta pela Microsoft, pois isso possibilita o crescimento individual e do grupo. Só é possível formar uma equipe quando conhecemos e confiamos em nossos parceiros", afirma ela.
"Agradeço a todos da Microsoft e os demais envolvidos nessas atividades pela confiança que depositam em meu trabalho. Acreditem, parte da profissional que sou hoje é resultado dessas oportunidades oferecidas e sem as quais eu não enxergaria a educação de uma forma tão simples, porém tão séria e responsável quando percebemos que a mudança depende de nós."
Para Edilamar, o ano de 2011 promete mudanças, o que não faltam são novas ideias e por isso, os planos são muitos. A professora pretende dar maior enfoque no Ensino Fundamental e trabalhar com a equipe escolar no desenvolvimento das competências através de saraus, teatros e cantatas.
Seu objetivo no momento é fazer com que a escola se torne um centro cultural, utilizando a tecnologia para promoção das atividades e estreitando possíveis distâncias, afinal, como Edilamar sempre diz aos seus alunos: "Longe é um lugar que não existe!"
Reportagem: Giovanna Penteado Sayeg
Fotos: Paulo Pepe/Divulgação