O zunzunzun era constante na hora do recreio da Escola Municipal César Augusto Soares, no Rio de Janeiro (RJ). As crianças, em vez de aproveitarem este tempo livre de diversão para brincarem, estavam sempre brigando. A freqüente reclamação dos professores necessitava de uma solução urgente. A resposta teria de vir rápido – e ela veio, por meio do Projeto Brincadeiras de Ontem e Hoje.
O trabalho surgiu da necessidade de se deter a crescente agressividade dos alunos demonstrada nos intervalos entre as aulas. Dúvidas sobre o porquê das crianças não se divertirem, e se isso era influência da época atual, passeavam na cabeça de Mariluci de Sousa Costa, atual diretora da escola.
“Precisávamos saber por que as crianças não brincavam e sim brigavam. Será que elas não conheciam ou não gostavam das brincadeiras de outrora?”.
A origem
E já que para se valorizar algo é preciso conhecer, a diretora foi direto à fonte do problema: a Favela do Rato, local onde reside a maior parte dos alunos.
Lá, verificaram as áreas de lazer existentes e quais brincadeiras eram as preferidas pelas crianças. Além disso, os pais dos alunos foram entrevistados, para que se conhecesse um pouco da infância de cada um. Mariluci explica que, inicialmente, houve um certo receio por parte dos moradores, que não queriam falar muito. “Porém, quando viram o trabalho concluído, adoraram!”
Levantadas as necessidades, educadores participando, era hora de envolver os alunos e planejar as próximas ações. Uma série de atividades foi desenvolvida, desde a pesquisa de brincadeiras pela internet até a criação de um blog para publicação dos trabalhos realizados.
Toda esta parte de recursos tecnológicos ficou como responsabilidade da professora Raquel Alves Rebouças, do 1º ano do ciclo. Ela conta que, sem a tecnologia, o projeto certamente não teria saído, e que a aceitação dos alunos foi excelente. “Pela primeira vez eles se sentiram valorizados e respeitados, e tiveram oportunidade de realmente se sentirem crianças!”, resume.
Mariluci acrescenta: “A tecnologia possibilitou a interatividade e a ponte com a modernidade. A inclusão digital não tem sentido numa escola de forma mecanizada e sem um objetivo pedagógico maior”.
Alegria geral
O sucesso de Brincadeiras de Ontem e de Hoje se deve ao fato de ele ter surgido devido a uma questão emanada do próprio grupo, de uma necessidade real da escola, o que, segundo a diretora, não impede que ele sirva de exemplo para outras instituições. “Há de se analisar e fazer as devidas adaptações”, explica Mariluci.
Raquel confirma e conta que o grande diferencial do projeto é unir elementos aparentemente tão distantes: brincadeiras infantis e tecnologia.
Os resultados positivos são muitos. Os alunos – que foram protagonistas de sua própria história – ficaram entusiasmados, e tiveram sua auto-estima elevada. “Com o projeto, foi garantida a eles a liberdade de fazerem suas opções, pois ampliamos os seus referenciais. Essa é a função básica da educação, e a informática na escola precisa servir a este ideal”, entusiasma Mariluci.
Quanto aos pais, estes ficaram emocionados ao assistirem apresentações de seus filhos feitas no PowerPoint. “Eles viram que seus filhos são capazes de produções positivas, e que eles não seriam mais chamados à escola apenas para ouvir reclamações sobre as crianças”.
E para a diretora, ficou o sentimento de alegria, por ver suas idéias, unidas às de outros educadores, tomando forma, consistência, e conquistando uma dimensão maior do que a esperada. “A grande vitória foi não ser mais um projeto de gaveta. Só a educação pode dar jeito nesse país”, conclui.
Reportagem: Adriana de Souza
Fotos: Arquivo pessoal
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